Sentes, Pensas e Sabes que Pensas e Sentes - Alberto Caeiro
Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm idéias sobre o mundo?
Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.
Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.
Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.
Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.
Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,
Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
Digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?
sábado, 10 de março de 2018
sabe, não sei
onde deixei o amor
depois que tudo terminou no começo
sei sim
um trem que passa aqui perto
quando nada mais importa
mais do que ser mesmo
sem dor
escuta
sabe que eu
sei bem quando
te dói, sabe?
tá nos olhos, sabia?
sei não,
andam dizendo que amor
é pra tudo
por todos
pra sobrar
saberia eu
amar? saberiamos quando for
amor?
restarei aqui
só
tentando.
onde deixei o amor
depois que tudo terminou no começo
sei sim
um trem que passa aqui perto
quando nada mais importa
mais do que ser mesmo
sem dor
escuta
sabe que eu
sei bem quando
te dói, sabe?
tá nos olhos, sabia?
sei não,
andam dizendo que amor
é pra tudo
por todos
pra sobrar
saberia eu
amar? saberiamos quando for
amor?
restarei aqui
só
tentando.
Um poema bem roubado.
um mundo repleto,
um punhado deles
debaixo do sol: poetas imaturos e poetas ruins.
roubar?
roubar familiares, um caderno
e minha caligrafia
não é o suficiente
um mashup meu, cabeças, é a minha profissão
grotesca e disforme.
roube.
seus pontos fracos e os fortes
serão um bom problema
se eu colocar vida neles.
viva! um mundo repleto,
um punhado deles,
debaixo do sol.
um mundo repleto,
um punhado deles
debaixo do sol: poetas imaturos e poetas ruins.
roubar?
roubar familiares, um caderno
e minha caligrafia
não é o suficiente
um mashup meu, cabeças, é a minha profissão
grotesca e disforme.
roube.
seus pontos fracos e os fortes
serão um bom problema
se eu colocar vida neles.
viva! um mundo repleto,
um punhado deles,
debaixo do sol.
domingo, 24 de dezembro de 2017
(Nossos corpos - Denise Levertov)
Nossos corpos, ainda novos sob
a ansiedade gravada de nossas
caras, e inocentemente
a ansiedade gravada de nossas
caras, e inocentemente
mais expressivos que caras:
mamilos, umbigo, e pentelho
fazem de qualquer forma um
mamilos, umbigo, e pentelho
fazem de qualquer forma um
tipo de cara: ou levando
as sombras redondas ao
seio, traseiro, saco,
as sombras redondas ao
seio, traseiro, saco,
a dobrinha da minha barriga, o
oco da sua
virilha, como uma constelação,
oco da sua
virilha, como uma constelação,
como se inclina da terra ao
amanhecer num gesto de
brincadeira e
amanhecer num gesto de
brincadeira e
sábia compaixão-
nada como isto
vem a passar
nada como isto
vem a passar
em olhos ou bocas
abatidas.
Eu tenho
abatidas.
Eu tenho
uma linha ou ranhura que amo
percorre
meu corpo do esterno
à cintura. Fala de
ansiedade, de
distância.
percorre
meu corpo do esterno
à cintura. Fala de
ansiedade, de
distância.
As suas longas costas,
a cor da areia e
como os ossos se expõem, diz
a cor da areia e
como os ossos se expõem, diz
que céu após o pôr-do-sol
quase branco
sobre a profunda floresta à qual
quase branco
sobre a profunda floresta à qual
as gralhas se dirigem, diz.
Saber o nome das coisas não é a garantia de que você as conhece. Isso a gente aprende com a vida, proseando e vivendo com gente amiga. Daí você vai aprendendo que de algumas coisas só se sabe o nome é de outras se sabe algo q não é o nome, algo q diz muito sobre a coisa. Algum conhecido da gente já escreveu sobre isso, mas não importa agora. O q importa é a certeza de que alguns lugares cultivam nomes, outros cultivam sementes e que também existe lugar cultivando tudo isso junto
SOMA DE MALOGROS NOVES FORA TUDO - Thiago de Mello
Com o desperdício de cores,
selo o fim dos meus amores.
Amor pode ser começo
de si mesmo a cada instante.
Fico no fim que mereço.
selo o fim dos meus amores.
Amor pode ser começo
de si mesmo a cada instante.
Fico no fim que mereço.
Sei que perdi: me apostei
inteiro. Mas aprendi
que não dependo (e ninguém)
só de mim para me dar.
É repartido que posso
vir um dia a merecer
a flama ardendo serena,
que resolve a diferença
entre viver e morrer.
inteiro. Mas aprendi
que não dependo (e ninguém)
só de mim para me dar.
É repartido que posso
vir um dia a merecer
a flama ardendo serena,
que resolve a diferença
entre viver e morrer.
Sei que perdi. Mas ganhei.
um coração grande
vezes roto
vezes cândido
vezes lúcido
vezes roto
vezes cândido
vezes lúcido
um coração pórtico
vezes trouxa
vezes cálido
vezes fora
vezes trouxa
vezes cálido
vezes fora
nove vezes fora
um coração pecado
vezes sujo
vezes tomba
vezes fraco
vezes sujo
vezes tomba
vezes fraco
um coração besta
vezes atroz
vezes boca
vezes tudo
vezes atroz
vezes boca
vezes tudo
nove vezes fora
todo coração não é um
noventa e nove vezes fora
outras tantas errático
noventa e nove vezes fora
outras tantas errático
posto
coração
de carne osso
e ferro
coração
de carne osso
e ferro
extrato do Grande sertão: veredas
As coisas que não tem hoje e ant'ontem amanhã: é sempre. Ai, arre, mas; que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Guerras e batalhas? isso é como um jogo de baralho, verte e reverte.
As pessoas e as coisas não são na verdade. A vida disfarça.
É e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é...Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses
É e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é...Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses
Só que tem os depois, e Deus junto. Vi muitas nuvens. Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando.
Afinam e desafinam.
Afinam e desafinam.
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