domingo, 24 de dezembro de 2017

um coração grande
vezes roto
vezes cândido
vezes lúcido
um coração pórtico
vezes trouxa
vezes cálido
vezes fora
nove vezes fora
um coração pecado
vezes sujo
vezes tomba
vezes fraco
um coração besta
vezes atroz
vezes boca
vezes tudo
nove vezes fora
todo coração não é um
noventa e nove vezes fora
outras tantas errático
posto
coração
de carne osso
e ferro
extrato do Grande sertão: veredas
As coisas que não tem hoje e ant'ontem amanhã: é sempre. Ai, arre, mas; que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Guerras e batalhas? isso é como um jogo de baralho, verte e reverte.
As pessoas e as coisas não são na verdade. A vida disfarça. 
É e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é...Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses
Só que tem os depois, e Deus junto. Vi muitas nuvens. Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando.
Afinam e desafinam.
De Jorge de Sena para Sophia de Mello
Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?
Los que no danzan (Gabriela Mistral)
Una niña que es inválida
dijo: ?«¿Cómo danzo yo?»
Le dijimos que pusiera 
a danzar su corazón...
Luego dijo la quebrada:
?«¿Cómo cantaría yo?»
Le dijimos que pusiera
a cantar su corazón...
Dijo el pobre cardo muerto:
?«¿Cómo danzaría yo?»
Le dijimos: ?«Pon al viento
a volar tu corazón...»
Dijo Dios desde la altura:
?«¿Cómo bajo del azul?»
Le dijimos que bajara
a danzarnos en la luz.
Todo el valle está danzando
en un corro bajo el sol,
y al que no entra se le hace
tierra, tierra el corazón.
Palabras soñadas (Leonel Lienlaf - Poeta Mapuche)
Me adentro
en estos cantos de sueños,
dormitando cerca del fuego
mientras afuera
el viento
hace bailar las montañas
Pewma dungu
Konan tachi ulkantun pewmamu,
düngunpewmamu
chonkitunmew kachill kütral
Wekun ta kürrüf
pürulmekefi mawida
dura pouco isso daqui
osso dure mais
duro
Há algum tempo atrás alguém me disse que o gesto, quando bem escolhido, recupera o mundo. Outra voz vinda de algum canto rebateu:
- ou destrói.
Exatamente, respondemos. Realizar o gesto impossível é o que queremos.
Clarice disse: Pão é amor entre estranhos

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

existe uma alegria alucinada no sorriso de quem quase cai com a aceleração do ônibus. começa com um susto, rasga num ai! e se transforma em risada gostosa por ter conseguido se agarrar. quase cair.

primeiro os olhos crescem enlouquecidos no desequilíbrio inesperado. sucede um grito envergonhado pela possibilidade de queda logo transformado num riso gostoso, pois houve tempo de agarrar-se na estrutura interna do ônibus, esta máquina que corre e balança.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

É madrugada e me pergunto
quando perdemos a sensibilidade de ser?
É madrugada e me pergunto
quando perdemos a vontade de ser?
É madrugada e eu
Mudo.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ceia de natal
sangria.
a imagem que lhes ofereço é a de uma faca e um talho. a imagem de uma melancia vermelha e gelada, sangrando doce sobre a mesa. seu suco viscoso molhando a toalha, aspergindo-se sobre o piso após sangrar como o veio de um rio novo que atravessa mesa. lhes ofereço a imagem das sementes desta melancia sendo trituradas por dentes quebradiços e velhos, dentes de um antigo pescador solitário e hábil. lhes ofereço os restos desta fruta. sua órbita colhida e desaparecida. ofereço a imagem oca desta melancia.
a imagem de cabeças: vazias, sobre a mesa.
viscosas.
um talho. uma faca. cabeças molhadas por um rio velho.
uma faca novamente, hábil e vermelha. lhes ofereço esta imagem, pescada entre os dentes. esta imagem e nada mais.
saúde
ao perder uma coisa
ganhou um trem,
longo louco e que apita
É ave rapaz
Sargaço nas veias,
Sorri uma boca bemaberta
quando defronte do golpe
Recebe e disfarça
na manha:
Sabe que há de chegar a hora:
O instantizinho fatal
sempre vem. Um átimo e pau.
Sorri essa mesma boca bemaberta
Enquanto aos montes
Outros sorriem impunemente;
Sabe que há de chegar o instantizinho, doce e fatal.