domingo, 24 de dezembro de 2017

Los que no danzan (Gabriela Mistral)
Una niña que es inválida
dijo: ?«¿Cómo danzo yo?»
Le dijimos que pusiera 
a danzar su corazón...
Luego dijo la quebrada:
?«¿Cómo cantaría yo?»
Le dijimos que pusiera
a cantar su corazón...
Dijo el pobre cardo muerto:
?«¿Cómo danzaría yo?»
Le dijimos: ?«Pon al viento
a volar tu corazón...»
Dijo Dios desde la altura:
?«¿Cómo bajo del azul?»
Le dijimos que bajara
a danzarnos en la luz.
Todo el valle está danzando
en un corro bajo el sol,
y al que no entra se le hace
tierra, tierra el corazón.
Palabras soñadas (Leonel Lienlaf - Poeta Mapuche)
Me adentro
en estos cantos de sueños,
dormitando cerca del fuego
mientras afuera
el viento
hace bailar las montañas
Pewma dungu
Konan tachi ulkantun pewmamu,
düngunpewmamu
chonkitunmew kachill kütral
Wekun ta kürrüf
pürulmekefi mawida
dura pouco isso daqui
osso dure mais
duro
Há algum tempo atrás alguém me disse que o gesto, quando bem escolhido, recupera o mundo. Outra voz vinda de algum canto rebateu:
- ou destrói.
Exatamente, respondemos. Realizar o gesto impossível é o que queremos.
Clarice disse: Pão é amor entre estranhos

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

existe uma alegria alucinada no sorriso de quem quase cai com a aceleração do ônibus. começa com um susto, rasga num ai! e se transforma em risada gostosa por ter conseguido se agarrar. quase cair.

primeiro os olhos crescem enlouquecidos no desequilíbrio inesperado. sucede um grito envergonhado pela possibilidade de queda logo transformado num riso gostoso, pois houve tempo de agarrar-se na estrutura interna do ônibus, esta máquina que corre e balança.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

É madrugada e me pergunto
quando perdemos a sensibilidade de ser?
É madrugada e me pergunto
quando perdemos a vontade de ser?
É madrugada e eu
Mudo.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ceia de natal
sangria.
a imagem que lhes ofereço é a de uma faca e um talho. a imagem de uma melancia vermelha e gelada, sangrando doce sobre a mesa. seu suco viscoso molhando a toalha, aspergindo-se sobre o piso após sangrar como o veio de um rio novo que atravessa mesa. lhes ofereço a imagem das sementes desta melancia sendo trituradas por dentes quebradiços e velhos, dentes de um antigo pescador solitário e hábil. lhes ofereço os restos desta fruta. sua órbita colhida e desaparecida. ofereço a imagem oca desta melancia.
a imagem de cabeças: vazias, sobre a mesa.
viscosas.
um talho. uma faca. cabeças molhadas por um rio velho.
uma faca novamente, hábil e vermelha. lhes ofereço esta imagem, pescada entre os dentes. esta imagem e nada mais.
saúde
ao perder uma coisa
ganhou um trem,
longo louco e que apita
É ave rapaz
Sargaço nas veias,
Sorri uma boca bemaberta
quando defronte do golpe
Recebe e disfarça
na manha:
Sabe que há de chegar a hora:
O instantizinho fatal
sempre vem. Um átimo e pau.
Sorri essa mesma boca bemaberta
Enquanto aos montes
Outros sorriem impunemente;
Sabe que há de chegar o instantizinho, doce e fatal.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

num desses dias tenebrosos onde se quer estar longe, fora de qualquer lugar, tive um vislumbre; uma parede pálida e branca:arquitetura hospitalar, um flanco maciço, calabouço no qual eu me continha. Os olhos, nem tão maciços, rotos e emergentes de tanto querer ver o futuro, cansados e em estado de alerta pois [todo cuidado era pouco] carcomiam aquela fronteira fórmica e fria. Já não havia pedido de socorro, lágrima não existia, nada mais era real além daquela parede na penumbra. Éramos nós. Eu e o silêncio.
Num desses momentos em que tudo conflui numa torrente de atenção e zelo, não por hábito, mas devido as circunstâncias pantanosas da pausa forçada, sem conexão, sem wifi, sem serviço de quarto, sem sorriso por desejo de sorriso, sem nada além daquilo tudo que era estar concentrado naquilo que era tudo vi algo que não era luz nem sombra; aquilo não tinha nome, não tinha forma nem jeito muito menos sentido. aquilo poderia ser qualquer coisa menos alucinação. E mesmo que fosse, não haveria problema em reconsiderar o fato. Poderia ser uma constelação, uma luz azulada de nome Aleph, um tesouro, todas as relíquias, a fé humana, todas as Deusas, todos os demônios, todas as crenças menos as que matam por crueldade. O que vi era qualquer coisa de inexplicável, intangível, inefável. Vi aquilo como quem vê o todo com um senso de justiça tremendo; um senso não pertencente a mim.
O que vi me desintegrou. Foi minha sorte.
Hoje é o dia no qual escrevo sobre esta visagem simples e insólita: uma parede comum, impessoal e fria condensou por um instantezinho toda a vida e me salvou. me salvou sem dó e sem cobrar.
Agora é primavera, em algum lugar do país faz calor, aqui neste quarto corre um frio pequeno, em outro lugar há quem me sinta e não sabemos se nos alcançará a guerra, embora exista a guerra em cada parte. o amor também.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

pouquinho
quase nada
é o que nos diferencia
e esse pouquinho é
muito
pra gente ser só
um
estando muitos
por pouco tempo
o resto é
bobagem
valha-me 
senhor das ideias
com tantas verdades
não suporto mais 
nossas mentiras
mentira!