segunda-feira, 2 de outubro de 2017
O mais precioso de mim, o atravessamento mais cortante, o objeto mais profano e sagrado, aquilo que muito me atravessou, o vislumbre mais feroz que tive nesta existência é impostável. IMPoSTáVEL. Sonhem com dominar os sentidos e os sentidos destruirão suas tentativas de ser o sonho: me disseram as gatas que aquecem minhas costas enquanto escrevo, me contou Borges.
As roupas que uso são emprestadas:
um estilo ganhado
A biblioteca é de livros alugados:
ideias passageiras
As viagens são feitas de teimosia:
A hospedagem é incerta
Minha casa não é minha:
Os canos vivem entupidos
Sim, sou um capeta endemoniado abrindo espaço em lugares onde dizem que eu não deveria estar. Sou um rasgo no céu, em sismo nas vísceras, uma incompreensível forma de vida desatada em ossos de ferro, carne de ferro, sangue grosso e muito desejo de engolir o mundo.
um estilo ganhado
A biblioteca é de livros alugados:
ideias passageiras
As viagens são feitas de teimosia:
A hospedagem é incerta
Minha casa não é minha:
Os canos vivem entupidos
Sim, sou um capeta endemoniado abrindo espaço em lugares onde dizem que eu não deveria estar. Sou um rasgo no céu, em sismo nas vísceras, uma incompreensível forma de vida desatada em ossos de ferro, carne de ferro, sangue grosso e muito desejo de engolir o mundo.
sábado, 9 de setembro de 2017
uma necessidade discursiva
apoderando-se de todos y todas
uma necessidade discursiva
também toma conta de mim
apoderando-se de todos y todas
uma necessidade discursiva
também toma conta de mim
ela está sequestrada pela morte instantânea
ela está sequestrada pelo público ausente
ela está sequestrada pelo público ausente
uma necessidade discursiva
tomou forma e está encadenada
encadeada
encriptada por uma cadência vil
tomou forma e está encadenada
encadeada
encriptada por uma cadência vil
ela está sequestrada
o carcere é privado
a prisão é uma tela
o carcere é privado
a prisão é uma tela
nada pode com ela
nem mesmo o caderno sozinho
solitário
nem mesmo o caderno sozinho
solitário
nem mesmo a ducha morna
sozinha e quente
solitária
sozinha e quente
solitária
nem mesmo a nota de geladeira
sozinha e branca
fria
sozinha e branca
fria
domingo, 20 de agosto de 2017
esgotado o termo
em um vigoroso aprouch, aprendi.
sabe-se que nas cercanias nada consta, nem mesmo um rosto espremido por soar seriedade.
entre tudo isso,
as fabulas dormem
os discursos cansam
e os gestos dos que tem tudo
mentem.
percorri um pouco mais do espaço
notando o movimento:
cada corpo era um barco
cada boca um engano
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
regressei deixando pra trás rumores de desafetos e gestos atrozes.
sabe quando o sonho é vão?
então!
sobrou certo amor-certo
não que haja arrependimento,
me escapo gostoso só de lembrar.
o lance é outro.
subiu pelas costas um vento sem dono
agitando a marola da vida
subindo a maré.
mostrando que a vida
se cata
é com a verdade que coça
bem de mansinho
numa
então!
se liga
que eu não fujo da raia
nado de braçada
sempre que me rogo
a ser solto
dentro de você
sábado, 27 de maio de 2017
Me quedo entre os não-o-quês da vida e as guerrinhas
indizíveis entre girassóis
de manhã acordo com o fel do sonho ébrio que é luta selvagem
e cortante
de tarde, na hora do almoço, como sorrisos na fila de espera
ali pelo lanche da tarde, passo a faca no abraço apertado de
gente amiga
na penumbra do ocaso peço socorro ao baile-pássaro de quem
transita em retorno
na noite me lambo como cão quente de inverno.
Tiago Ferreira
domingo, 30 de abril de 2017
dia das mulheres
no dia de hoje só consigo pensar no machismo que me fode a vida e no tanto que ele fez eu ser um idiota com mulheres. não espero aplauso por isso, não espero curtidas por isso. as vezes penso que não é possível existir mais como homem neste mundo. quero conseguir renunciar ao desejo de ter sucesso profissional, quero conseguir renunciar ao medo de ser afetuoso com outros homens, quero renunciar a estupidez, quero conseguir renunciar a prepotência, quero conseguir renunciar a insensibilidade, quero conseguir renunciar ao medo do afeto, quero renunciar a cobrança cobrança social de ser o pior tipo de macho. agradeço a todas as mulheres que me tocaram nesta vida (mãe, irmãs, tias, avó, amigas e namoradas). me envergonho por ter sido um otário em vários momentos. mais uma vez, não espero aplausos, não espero curtidas. é só um depoimento e um expurgo de mim mesmo. só agradeço a mulher que topou criar uma vida comigo: ela me mostrou a vida, me mostrou outra forma de enxergar o mundo, me mostrou outros caminhos. atravessamos dificuldades neste momento, porém, o que mais quero é poder conservar uma amizade por toda a vida com esta mulher. todas estas mulheres são minhas mestras e por muito tempo neguei, escondi isso de mim.
sinto tristeza e vergonha ao ver homens com medo de homens quando entram no banheiro, homens com medo de homens quando conversam, homens com medo de homens quando brigam. homens necessitam se impor de um jeito violento, homens se mostram muito machos por medo de se mostrarem sensíveis para outros homens. sinto raiva quando vejo homens conversando com homens. homens quando se juntam podem ser muito escrotos. mais uma vez. sinto raiva por eu ser tão insensível e medroso em tantos momentos. fodam-se os aplausos!
bom mesmo é poder agradecer, ser agradecido, agradecer homens e mulheres sem haver no fundo raso uma espécie de lastro de qualquer outra coisa que não diga respeito a humanidade de cada pessoa. homens tendem a colocar a frente do diálogo uma camada, poeira, crosta de libido e interesses outros com o intuito de seduzir, emaranhar, envolver. não quero dizer que todo homem faça isso, quero reafirmar que é uma tendência ensinada em casa, nas ruas, nas escolas.
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