domingo, 12 de fevereiro de 2017

A vida na hora - Wislawa Szymborska
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.
Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.
De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.
Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência.
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.
A ilha dentro da ilha
Um Polonês, provavelmente judeu, bebendo uma cerveja alemã diante de um supermercado que emprega nordestinos.
Uma cidade flutuante nadando em ouro e prata enquanto é observada do alto dos morros por traficantes ucranianos e russos vindos do oeste do estado e do estado vizinho - Paraná.Destas elevações ascendem diariamente descendentes de escravas que antes não eram escravas. Eram nobres e livres em Cabinda, em África.
Outros, novos no pedaço, ocupam empregos pífios hablando um francês particular, o Créole. São descendentes da primeira revolução negra das Américas. Haitianas e Haitianos trazidas por uma maré migratória pós terremotos que escancararam a história deste lugar. Um exército sem comandantes marchando diariamente "sob o olhar sanguinário do vigia" branco e assassino, enquanto este range os dentes, sentado numa poltrona, sempre que um pedaço de território branco é ocupado e aproveitado de fato.
Há de se esperar por outra revolta que rearranje esta história de saque e usurpação, pues. Uma revolta que virá pelo entendimento de que memória é revolução.
minha matéria
não é a ordem
minha matéria
não é a alegria
é o traço de um
grito
é o risco feio
sujo
RELAPSO
faço do meu vício
ilícito e sujo
o retrato
em florianópolis capital rola de pegar carona pra ir de algum bairro pra outro [é restrito, não é pra toda parte]. isso é legal, né? uma capital com essa coisa good vibe e ao mesmo tempo beat. lindeza. ultimamente, tenho saído do bairro onde tou pra onde devo ir com essas caronas. 20 minutos pro que seriam quase 40 no busão, e ainda rola de encontrar uma carona que tá escutando isso aqui, ó:
firmeza, né? a ilha fede e cheira bem ao mesmo tempo. amo esse lugar também.
não sei, lendo um artigo desses de facebook gourmet, fiquei sabendo que mais gente sente umas coisas como eu [o tão falado eu]. como é pra vocÊs? me siento totalmente absrvido por essa máquina aqui. tipo um truque chamado facetruque. a gente nem sabe mais a veracidade os fatos!
diante dessa paçoca toda, me sinto como um ser fora do tempo. nem no passado, nem no futuro, muito menos no aqui. é uma sensãção de não-lugar, mas não o não-lugar da gente marginalizada, é um nã0-lugar de flutuar. é quase como se o corpo não fosse corpo mais. como se restasse solamente o globo ocular e a tela. a tela azucrinada pela timeline. mil trechos e mil coisas lidos e nada fica, tudo passa.
é isso e repito, um ser que não tá aqui no presente, não tá lá no futuro e nem aqui no agora. uma doidera!
aposto que cê sente isso.
daí sinto uma irresistível vontade de dadaízar todo e qualqwer discurso. sinto como se tivesse armando uma vendetta que parte da inutilidade. ser inútil é resistir?
é isso e reputo, uma desordem caótica de tudo por conta dessa joça de vida virtual.
to meditando como remédio já que o estrago já tá feito. aceita se quiser, beibe. enfim, esse é meu discurso do eu de hoje. buenas!
uma das soluções pra artista pro contemporÂneo? Passar o chapéu, óbvio!
sem sombras não há profundidade
A vida também é um doce.
olhe só pra estas paredes,
não são a expressão das divindades que nos espreitam?
https://www.youtube.com/watch?v=dTrF8XWpcBA
pra ver a qualquer hora. quando o desejo de estrada te acometer. quando as paredes do teu quarto não te suportarem mais mandando-lhe ir à alhures, lembra, há gente boa no mundo. mesmo que a dúvida devido a falta de dinheiro te comova, vá para a estrada e saiba que o doce que saboreias agora é o mesmo veneno que te matará um pouco amanhã. destrone kerouac e fique somente com a intenção da estrada. saudações de verão.
Não sou Ninguém! Quem és tu?
Também – tu não és – Ninguém?
Somos um par – nada digas!
Banir-nos-iam – não sabes?
Mas que horrível – ser-se – Alguém!
Uma Rã que o dia todo –
Coaxa em público o nome
Para quem a admira – o Lodo.
Emily Dickson (1830 - 1886)

domingo, 28 de agosto de 2016

Não existe saudade que dure dolorida. Tendo o pé na estrada e a vida chacoalhada por chegadas e partidas, dançamos o flerte entre o olhar e a paisagem que vai passando. Os dias estão para para-brisas, blusas de lã e carinhos reencontrados nas sombras da cidade.
Agora a saudade é doce e pede um balão para flutuar.

Ouro Preto, 28 de agosto de 2013

quinta-feira, 3 de março de 2016

nº 01 / 2016

O digito pouco verossímil
é o tato impermeável,
o fluxo fastiado de ver
a tela

o papel é a face.
risco de ser retalho e rabisco
rosa prima do rastro de quem está
com as mãos prontas para encarar
o suor de se reinventar
sem um delete ou excluir-se

soçobrar-se em tintas e sonhos
delirar até que os dedos sejam vivos,
vorazes e acabem abocanhando a carne
do instante

sonho
se sonho

gozo
seu gozo

corro
e não me basto de ser bastardo
nos negócios,
filho do ócio e da sanha do mundo.

finco
e não fujo.

fujo não

viagem sempre foi o mote
a rua sempre foi a sorte
o sonho sempre foi o cio
o tempo sempre foi espera
silêncio, grito e loucura.
elmos, lixos e luxúria
sacos, olhos e espadas
saem as lágrimas, soam os sinos
sacodem os egos
cisma! divisão e o passo seguinte
é o inicio do espaço.
olhos corroem, bocas difamam
e o sonho é fernando pessoa
manoel de barros
e o poeta da praça.
quem sabe de tudo? nada
quem fala de tudo? nada
quem cuida de tudo? nada
deus é pouco pra quem quer o muito!
adeus!