domingo, 6 de março de 2022

06 de março de 2021

 O que será que se passa

entre a palavra e o músculo
entre a saliva e o ar
que me tanto desconserto em ser?
Não pálido, não pó
não lúcido,
tanto menos,
empírico.
Sofro de desconsolo
desconserto
e me cravo
de luz
sempre que dá.
Peço y calo
por saber ser
labor na luta
verdade no ato
e atento ao
outro que de
tanto em tanto
somos.
Me perder e não me perder de mim é o título debaixo de tudo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

 RADICAI 1

cansação.
ação limitante,
desatino

 RECALCITRÂNCIA

submergirmo-nos em adiantes
quando na realidade
um aqui anda carregado
de agora

segunda-feira, 17 de maio de 2021

17 de maio de 2011 

Há querências nas brisas que correm dentro dessa casa,

Há reboliços nos ares que penetram nessa janela,
Há luas cheias, minguantes, crescentes e novas nestes corpos,
Tudo isso dentro de um mate-desterrado!

terça-feira, 4 de maio de 2021

 30 de abril de 2019


Estes limiares entre passado e presente, entre espírito e corpo, entre memória e matéria: dia desses houve algo novo. Como a boca que fala fora do corpo sentimos uma ruptura, presenciamos o descompasso temporal entre a carne e a lembrança. A voz observava de trás o corpo imerso na densidade atmosférica da sala, lugar muito lento. A voz, espírito do tempo, abocanhada pelas torrentes relacionais contemplava impressionada a lentidão da matéria diante de sua emergente necessidade de transformação. A voz puxava o presente-futuro, a novidade, e a matéria teimava em ser vagarosa, estranhava a novidade. Um momento disruptivo, uma cisão foi o que aconteceu. Algo pra ser levado em conta nestes nossos processos de transformação: o hábito ao qual nos agarramos precisa ser desarticuldo cuidadosamente, amorosamente pois os conceitos aos quais eles se agarram já não frutificam mais. Larga esse hábito e recria a existência no fazer com atenção aos mínimos detalhes porque a novidade do mundo já está aí, ainda que a guerra esteja sendo tramada pra gente não ver isso. Repara e vai! É o que me digo dizendo à todes!

quinta-feira, 15 de abril de 2021

 menor que um haikai

eu já era?

 Pandemia

Florianópolis, 15 de abril de 2020


À gente refugiada com casa e sem casa
Não há modo de ter tempo para mim quando o tempo de ninguém é. O tempo que me tem já não o é quando vejo essa pele amornada pelo sol. Estes ossos, estes dentes, esta lingua cheia de gosto de café é algo do tempo que já não é. A capoeira ensina que Todo Tempo Não É Um. O que fazemos com esse restolho de tempo que somos? Ao mesmo tempo, este resto é o que retoma o tempo que vem vindo sempre. Portanto, o retiro pode ser sobre reativar a escuta desses tempos que vão e vem. Um privilégio e uma benção. Se temos tempo para ralentar o tempo do relógio, ou seja, o tempo do trabalho enquanto tempo da mais-valia, sofremos porque parece não haver tempo a perder. Ralentar o tempo para viver o tempo multiversal parece ser o privilégio e o problema, porque o tempo do trabalho como mais-valia não tem pena. Condena à morte quem tem fome, quem mora no tempo das calçadas, dos barracões abarrotados de muitos tempos com boca, braços, coluna, estômago por onde passam emoções sem tempo. Desfrutar desse tempo emergente e se revoltar contra o tempo das urgências raptados pelo tempo do trabalho como mais-valia. Seria a consciência um encontro profundo com o tempo? Pq antes do conceito trabalho, há o tempo. Porque se me encaminho para a morte num tempo de 8h, 9h, 10h horas diárias lançando-me cegamente numa piscina de pequenas bolhas de gordura com rna dentro, não estou podendo viver o tempo do tempo enquanto passagem e ancoragem. Desse modo, o trabalho enquanto grilhão do tempo das pessoas, que sequestra a vida da gente. O trabalho alienado alienando o tempo das multiplas forças, esse tempo que caminha deixando para trás as margens que cooperam com a força do rio. Esse tempo do rio, por exemplo, não deveria ser o tempo do rio e o tempo das margens tal como pensa o Brecht. Pq se assim pensa, mesmo que esteja discutindo e insuflando a revolta, acaba voltando ao mesmo afastamento tão atroz à humanidade. Acaba retornando à dissociação humanidade-natureza. Por isso, continua operando no tempo do trabalho como produção de materiais, como criação da humanidade para a humanidade. Reavivar o tempo coletivo, pode ser, escancarar o corpo para a pragmatica ação de saber-se tempo junto do tempo-árvore, tempo-montanha, tempo-melanima, tempo-minhoca, tempo-vírus. Vale pensar que este tempo não é apenas tempo da beleza, é também tempo-destruidor e também reanimador. Parece enfim, que para este tempo do tempo multiversado existir, e não só o tempo humano existir, teremos que abrir mão de tudo isso ao qual damos o nome de privilégio. Abrir mão do privado. Se formos lá no Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, ele irá falar do tempo de uma futuridade revolucionária que só pode vir quando estivermos sensíveis às diferenças produzidas pelos privilégio. Segundo ele, que surpreendentemente cita uma filosofia do tempo (pragmática, ativa por natureza), sensibilizar é urgente. Daí me pergunto, como é que se sensibiliza? Imagino q dê vários modos. Cada pessoa aqui deve se identificar com uma ou um conjunto de práticas. Eu, secretamente, sinto que a consciência é uma chama que é alimentada pelo movimento e que criar uma futuridade revolucionária é uma tarefa pra vida inteira. Ainda assim, parece que primeiro precisamos aprender a balançar, pq desabitar o corpo de práticas destruidoras, compartimentadoras e preconceituosas não é tarefa fácil. Do mesmo modo que criar um reino de conceitos parece não ajudar muito no que alguns chamaram de trabalho de base. De repente, ser míscivel. Também ser místico sem deixar o papo reto da rua de lado. Sabe pq? Por castelos daqueles de filme se constroem em todos os fronts. Por isso, parece ser bom construir um reino para si onde a fragilidade e a queda não deixem de ser uma opção. A gente precisa ser real para poder sucumbir. Quem sabe a gente se encontra de verdade por aí nestes dias de refúgio para de repente ajudar xs refugiadxs que continuaram existindo. Até ou asè

sábado, 2 de janeiro de 2021

 ei são paulo, terra de arranhacéu! da ponte pra cá é uma paulista que me deixa com receio de tocar as pessoas, que faz das articulações uma fechadura. cheguei caminhando pelo viaduto santa Ifigênia, cai nas bordas da 25 e mudando de rua passei pelo largo da memória. aqui não é salvador. cidade dura. cadê a graça da música de caetano? atravessei o chá, o municipal pra baixar no metrô da república. é clichê mas é isso, gente de todo lugar e minhas articulações continuam apertadas, trancadas. foi em vão saltar no masp, entrada cara. foi decidido que caminharia pela paulista no sentido consolação. primeiro uma mina acompanhada de um saxofonista arraza o passeio cantando rihanna. foda! depois um quarteto: uma violinista negra, um violinista cego, um cellista negro e um cantor jovem argentino e gay mandam uma ópera fodidamemte linds no meio da avenida dos patos. o cantor esbanjando sua feminilidade e a gente babando. ganhou o público! segui. subi no alto do sesc e não achei muita graça em ver um mar de prédio, prefiro o mar de água salgada ou uma montanha no meio do mato. desci correndo pra me encontrar com salvador dentro do centro cultural de um banco que andei dando calote. Era o Ilê Aiyê balançando meu coração e me transportando de volta pra Salvador. Não sou de terreiro mas saí num axé danado. Voltei por onde vim prs encontrar com a Augusta, lugar que nunca me faz sentir graça (desculpa aí habitués de lá). Cheguei na Roosevelt e só constatei um pouco mais da dureza do lugar: gente dormindo no chão, gente bebendo cerveja sem olhar no olho da gente. Saí fora, passei pela Mario de Andrade já de retorno pra estação república. Sem mais, desci na Luz pra pegar a linha azul até a Zona Norte onde dizem que a banca a forte. São Paulo é pro fortes e pro fracos. Tudo parece doer como numa canção do Itamar ou da Gal, ainda assim, fico com o Zeca Pagodinho: vida leva eu nesse 2019 de poucas esperanças na televisão e de muita gente, inevitavelmente, na rua quer queira quer não. Arre!

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Não sei mais poema, música nem sistema. Não sei xadrez, não sei ser à vácuo. No mundo simbólico, sou só vacilo. No mundo agora de certas certezas incertezas, sou osso que toma ônibus, que murcha o peito de vergonha de sentir vergonha da vergonha que é ser a marca da morte do mundo. Chega de reclamar, dizem. Os sonhos, por outro lado, dizem. As bocas dizem, os bocejos dizem, as barricadas ainda existem um pouco longe de mim. Admito. Privilégios. Admito.
Demissão. Servente, serviços gerais, atendente do Centro-Oeste e Norte. Displicente, leviano, mórbido, lento. Silêncio. Cada palavra que não cabe na ação é uma hora de sono a menos. 4 da manhã. Semanas de 4h da manhã. Não importa. O problema é universal, pra que falar de si? Fuçar livros e recompor-se. Duvidar dos livros que lê. Só homens? Surrar-se. Sussurar-se. Escrever simples. Difícil. Popular. Relembrar que se é popular. Poupar-se. Não saber usar preposições. Soluçar sozinho, em duo, em grupo. Solapar. Ir solapando sem saber. Desistir e retomar. Silenciar mas também falar. Tomar posição mas também se afastar. Paradoxo ou contradição? Tudo junto? Tomar posição ou ir posicionando-se ou tudo junto? Abram-se mil ouvidos.

 

domingo, 13 de setembro de 2020

 estou selva, fagulha,

filomena nos passos do aço.
estou açude e carrapato do burro. estou.
estou como nunca fui sendo. cortante.
haste de vidro na polpa de seus olhos,
seiva na boca de suas botas. molhadas. sonoras.
arre! foda-se hoje razões e planos,
ezquizemos infinitamente. até o fim sem fim.
um salve. um salve. um salve aos alucinados.
um salve aos que nas esquinas sonham
sem serem incomodados por opiniões.
um salve aos que só são
nas esquinas da cidade,
ilha.
a poesia é sem nome. um alumbramento que não cabe num só jeito. um sonho e só

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Estes limiares entre passado e presente, entre espírito e corpo, entre memória e matéria: dia desses houve algo novo. Como a boca que fala fora do corpo sentimos uma ruptura, presenciamos o descompasso temporal entre a carne e a lembrança. A voz observava de trás o corpo imerso na densidade atmosférica da sala, lugar muito lento. A voz, espírito do tempo, abocanhada pelas torrentes relacionais contemplava impressionada a lentidão da matéria diante de sua emergente necessidade de transformação. A voz puxava o presente-futuro, a novidade, e a matéria teimava em ser vagarosa, estranhava a novidade. Um momento disruptivo, uma cisão foi o que aconteceu. Algo pra ser levado em conta nestes nossos processos de transformação: o hábito ao qual nos agarramos precisa ser desarticuldo cuidadosamente, amorosamente pois os conceitos aos quais eles se agarram já não frutificam mais. Larga esse hábito e recria a existência no fazer com atenção aos mínimos detalhes porque a novidade do mundo já está aí, ainda que a guerra esteja sendo tramada pra gente não ver isso. Repara e vai! É o que me digo dizendo à todes!

segunda-feira, 16 de março de 2020

gente, nunca só gente
nem só gente, nem só bicho, planta ou mineral.
tampouco sou, gente só.
somos.
ainda que só gente,
sempre com.

sempre com mais de um
porque senão,
só não vive.
só e com.
sempre
ou nunca será.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

a pouco tempo atrás éramos tao diferentes
e agora é esse tanto de gesto sobrando
essas emoções deslocadas
esse monte de coisas caindo
adubando
mudando e meio sem jeito